A Vida Religiosa consagrada e a vida no planeta
Dimensão ecoespiritual
A consagração batismal vivida no contexto de Vida Religiosa Consagrada (VRC), não isenta nenhuma mulher e nenhum homem consagrados da cidadania geográfica e planetária. Desde sua identidade fontal, a VRC é convidada a expressar sua fidelidade a Deus Pai e Mãe da Vida na história humana, acrescentando-lhe um novo sabor e saber.

Ao servir e cuidar da vida, especialmente, da mais ferida e ameaçada e ao se colocar onde e com as pessoas mais desprovidas e à margem da vida na luta por condições humanas de vida, a VRC testemunha que não tem finalidade em si mesma.
Historicamente, como mulheres e homens consagrados, cidadãos do planeta Terra, tão enfermo (Lovelock), somos de certa forma e em alguma intensidade, pelo nosso ser e pelas nossas relações, formadores de consciências, agentes de valores, crenças e modo de exercício de poder que humanizam, geram vida ou prolongam agonias. A Campanha da Fraternidade (2011), com o lema “A Fraternidade e a vida no planeta” e o tema: “A criação geme em dores de parte (Rom 8, 22), nos interpela para um diferenciado “olhar, contemplar e considerar” (Sta. Clara de Assis), as condições de nossa casa comum, corresponsavelmente, como co-criadores (Gen) e a agirmos com ações locais e pensar global.
Considerando a VRC, como parte significativa do e no planeta Terra que, geme por mais vida, ela, comprometida com Jesus Cristo e seu projeto de vida plena, é interpelada, de modo específico nessa quaresma, a rever algumas de suas práticas e estruturas também internas. Aliada à vida ad destra (fora de si mesma) e ad intra (dentro de si mesma), ela poderá propiciar mais vida e aliviar alguns “gemidos” de seus próprios membros. Vivemos numa época marcada por muitas, profundas e rápidas mudanças e por crises institucionais; a VRC, como instituição, também passa por crises e desafios específicos.
Atualmente, muitos são os “gemidos” por leveza institucional e maior foco na missão a partir de uma experiência pessoal de Jesus Cristo histórico. Em meio a tanto pluralismo de formas, mercadorias e consumo há necessidade e clamor por resgate da dimensão profética da VRC. Pelo vigor profético poderemos ser desinstalados das nossas “zonas de conforto” (John Powell), de nossos ninhos quentes que nos embalam na canção hedonista do marasmo, do “já fiz muito”, da falta de criatividade no cotidiano e do “não adianta”. Entre fortes e significativos testemunhos de dedicação, coerência, generosidade, ousadia evangélica há joios robustos ou “gazes fétidos e nuvens cinzentas”, advindos de certos paradigmas de Igreja e de VRC. Tais “poluentes ambientais” estreitam e, até impedem o diálogo e a acolhida de pessoas com paradigmas diferentes dos convencionais, novas forças e estilos (estereótipos), sem perda nem desqualificação do essencial e inegociável, sempre permanentes.
O tempo-convite quaresmal é oportuno a uma profunda e transformadora conversão: pessoal, comunitária e institucional. Que tal revermos nossas atitudes, linguagem, olhares, percepções e comportamentos, especialmente aqueles que poluem e contaminam o horizonte da esperança, minando com o pessimismo iniciativas, novos protagonistas e alianças? Há quantos anos não revisamos o conteúdo e a metodologia de nossos programas de formação? Os mesmos contemplam as pessoas concretas do terceiro milênio e a realidade familiar do tempo atual? O que prevalece em nossas comunidades de vida, as pessoas, as partilhas, o diálogo, as estruturas organizacionais ou as tradições? O que mais nos conecta como membros de uma comunidade, o tempo e as atividades que realizamos juntas/os ou o espírito comum que nos anima e impulsiona para múltiplas atividades e presenças em areópagos diferentes?
Com os corações aquecidos pela experiência pessoal de Jesus Cristo, avancemos, corajosa e solidariamente, com os ouvidos atentos aos clamores por mais vida, com as mãos mais generosas e passos firmes na disposição de sermos agentes de vida em todos os lugares e circunstâncias. Empenhemo-nos criativa e amorosamente, para que um dia possamos entoar o hino de alegria por vislumbrar esse planeta próximo do sonho de Deus Pai e Mãe criadores.
Ir. Terezinha Del'Acqua
